Magim

DSC03045Esta história começa em novembro de 2003. Eu estava de férias em BH e no meio de uma conversa com meus familiares, alguém levantou a hipótese que neste ano nós poderíamos fazer um Natal diferente.

Todo ano é a mesma coisa: lojas, presentes, festinhas, etc e tal. A conversa caminhou para aqueles que não tem recursos financeiros e dependiam dos outros para darem um pouquinho de felicidade para os filhinhos no Natal.

Imagine a cena de um filho seu pedindo um brinquedinho porque viu um amiguinho com um carrinho e voce não poder dar… Aquela cena foi triste de imaginar e estávamos um pouco cansados da mesmice do natal, não do verdadeiro sentido do Natal, mas do natal comercial, aquele que a mídia e as lojas usam para ganhar dinheiro.

Nós percebemos que podíamos fazer um Natal diferente exatamente neste ponto. Pensamos: Isto não está certo! Normalmente se dá presentes para o aniversariante, não é? Então , que ideia é essa de dar presentes entre nós mesmos? O que o Aniversariante recebe no Natal?

Decidimos então dar um presente para o Aniversariante. A conversa continuou para decidir o que que este Aniversariante gostaria de receber de nós neste dia. Decidimos que a caridade para um desconhecido seria o melhor presente, afinal foi ele mesmo que disse isso a 2000 anos atrás, não foi?

Procuramos então meios de contactar uma entidade beneficente qualquer e nos engajarmos numa campanha de Natal. O tempo foi passando e chegou dezembro sem nada de concreto à vista. O Natal foi chegando e na semana anterior ao mesmo estávamos somente com a boa vontade pronta, mas nada feito ainda. Não conseguíamos dar continuidade ao intento.

Fomos então numa loja de festas e compramos coisas para fazer uns pacotinhos de lembrancinhas, com balas, pipocas e brinquedinhos. E então encontramos um grupo de trabalhadores que nos indicou uma creche que estava com dificuldades para fazer o Natal das crianças. Eram então cerca de 70 ao todo.

Fizemos mais lembrancinhas e fomos procurar a creche. Esta creche fica num bairro muito pobre na periferia de Contagem, o bairro Nova Contagem. A “viagem” parecia que não ia acabar nunca, de tão longe que era. Chegando lá, descobrimos que a creche era movida praticamente só de boa-vontade, pois era muito pobrezinha. Chegamos de supetão, e fomos muito bem recebidos por todos.

A maioria das crianças não estavam lá, pois estavam com os “padrinhos”, voluntários que adotam uma criança, mas não definitivamente; é como se fossem padrinhos mesmo, eles as levam para passear, brincar quando querem ou ou podem, até que o processo de adoção termine. Eles estavam preocupados porque não tinham como fazer um Natal para aquelas que ficaram lá porque não tinham “padrinhos” e quando nos viram chegar, derramaram lágrimas de felicidade.

Ficamos todos nós muito emocionados também, pois imagine voce, as crianças guardaram as balas para comer depois! Os dirigentes nos contaram que aquelas crianças não tinham nada, mas nada mesmo e que algumas iriam guardar as balas e pipocas até por uma semana, de tão valioso para elas era o presente que receberam.

Senti-me envergonhado, pois sei que poderia dar muito mais do que demos e o que nós recebemos de volta neste dia foi um carinho tão grande, mas tão grande, que por mais que déssemos, aquilo nós recebemos nos fazia eternos devedores para aquelas crianças. Os dirigentes nos disseram que o maior presente que as crianças receberam foi nossa visita e a nossa preocupação em visita-las, mesmo se não levássemos nada além de nossa presença.

Tomamos o café da tarde junto com eles, meu neto brincou junto delas e conversamos longamente com as crianças e com os dirigentes, pessoas que, a troco daquele carinho, davam dias e dias de seu tempo para manter a creche funcionando.

Ao sairmos, fomos saudados com muito carinho por todas as crianças e percebemos que ali existia felicidade, apesar da pobreza material. Saí de lá ao mesmo tempo muito feliz e arrasado, pois recebi uma lição de grandiosidade que nunca vou esquecer.

Fomos doar e acabamos recebendo. Ao invés de fazer caridade saí como um devedor. Aprendi que caridade não é esmola. Caridade é doar um pouco de sí mesmo em prol de alguém e fazendo isso, você recebe de volta muito mais do que você doa.

Ao comentarmos o fato entre nós percebemos que podíamos fazer mais do que fizemos e podíamos dar mais carinho para crianças carentes. Minha filha disse que queria voltar para brincar com eles e me pediu que eu comprasse um curso de escultura com balões para fazer bichinhos, etc. Comecei a procurar o curso em São Paulo. Eu pensei então no que eu poderia fazer.

Um dia, ao passar pelo viaduto Santa Ifigênia em SP, ví um camelô vendendo mágicas. Parei para ver e depois de algumas exibições, eu disse para mim mesmo: Isso eu sei fazer, isso eu consigo fazer. Vou aprender mágicas para crianças. Comprei umas coisinhas e fui feliz para casa. Vê-se aí que não sabia bulufas de mágicas. Não sei porque, mas percebi logo que aquele não era o caminho certo. Fui na Internet e descobri a universidade da mágica onde fiz um curso gratuito de mágicas com baralho, mas não era o que eu queria, pois não é adequado para crianças.

Pesquisei novamente e descobri (?) que o mundo da mágica é um mundo fechado. Mas um link me chamava a atenção, mas não entrei porque já tinha ido lá por outro motivo e não gostei muito, pois parecia mais um camelódromo virtual. Um dia entrei neste link. Adivinhe qual era? É isso mesmo, o ML. Entrei e comprei um CD, que logo ví que, além de pirateado, continha coisinhas muito bobas. Mas, pensei, para crianças deve ser isso mesmo. Grande engano… Insistindo, entrei no site da TV Cultura onde encontrei muitas mágicas também, mas isso ainda não me parecia o caminho certo. Aqui cabe um parênteses:

Nunca havia visto um show de mágicas ao vivo, somente o que a TV Globo mostrava no Fantástico, na época do Kardini, Doug Henning, etc. e mais tarde o nosso “amigo” mr m, que por sinal foi o responsável pela minha decepção pela magia, apesar de que naquela época eu não entender a profundidade do mal que ele fez ao público.

Bom, continuando a procurar, encontrei vários sites de associações de mágicos, solicitei informações em formulários de vários destes e aguardei. Como não houve retorno de nenhum deles às minhas solicitações, conclui que o mundo de mágicas estava em baixa e até estes sites estavam abandonados ou os próprios mágicos desinteressados.

Continuei sozinho até que acidentalmente encontrei uma loja de mágicas no Stand Center da Av. Paulista. Imediatamente simpatizei-me com o dono, o Mágico Fernando Ventura. Depois de algumas visitas à loja, contei para ele esta história. Ele imediatamente se prontificou a ajudar. Como ele dava aulas de esculturas de balões, me ensinou gratuitamente, dizendo que fazendo isso ele estava ajudando também. Por este gesto eu o agradeço até hoje.

Então eu pude ensinar para minha filha. Resolvido o problema dela, ficou o meu. Ele me ensinou muitas coisas e quando sentiu que eu realmente estava interessado em aprender mágicas, me apresentou ao Ênio e ao Mercado Mágico.

Graças a ele acabei entrando no mundo da mágica pelo caminho certo. Infelizmente, este ano o Ênio não deu curso de mágica, mas ano que vem eu farei um curso com ele.

Em Belo Horizonte encontrei, por uma indicação de um desconhecido a loja do Kellys, o Castelo das Mágicas e lá fiquei conhecendo o Marco Lacerda que hoje considero um amigo e me esforço para corresponder à sua amizade. O Yagum, que só encontrei uma única vez e espero reencontrar mais vezes, alguns mágicos que frequentam a loja no sábado, todos muito simpáticos, mas só os conheço de rosto. Conheci o Kellys que, para quem conhece, não necessita comentários.

Resumindo, o que me levou a ser um mágico foi eu querer fazer “corações sorrirem”, como disse um mágico no passado, fazendo mágicas para crianças, mas principalmente crianças carentes. Elas merecem Quero dar-lhes o que posso ser de melhor como mágico, com aparelhos, figurino, etc. Não é porque são carentes que vou fazer um showzinho mais ou menos, não. Quero fazer o melhor e sempre que for possível, farei.

Somente quem viu o brilho de encanto nos olhos de uma criança após fazer uma mágica sabe do que estou falando. Nunca vou esquecer. Isso eu já falei noutro tópico. Me considero um Mágico pois absorvi os princípios mágicos dentro de mim, mas ainda sou um mágico medíocre e atrevido, medíocre por não ter as habilidades ainda treinadas e atrevido por mesmo assim fazer shows. Sei que somente anos de dedicação podem me tornar um grande Mágico, e assim serei, com a ajuda de Deus e de amigos como vocês.

Apesar de longo, este post ainda foi resumido, alguns detalhes não descrevi, mas a ideia geral está aqui. Se por acaso alguém quiser mais detalhes sobre algum ponto, terei o maior prazer em esclarecer. Agradeço a Deus pelo dom de “fazer corações sorrirem” e pela paciência de quem leu este texto até aqui.

Abraços fraternais

Laércio J. M. Nunes (Magim)

P.S.:

Ah! Não sei se o Aniversariante do Natal ficou satisfeito conosco, mas tentaremos dar-lhe presentes cada vez melhores a cada ano.

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